Domingo, 11 de Maio de 2008

Achados no baú (8)

 

Era ainda um tempo em que se realizava com regularidade, no Rivoli, o Festival de Jazz do Porto, organizado pela Culturporto, depois feita desaparecer pela gestão autárquica de Rui Rio, assim desaparecendo com ela também aquele evento jazzístico!

A edição de Novembro de 1999 foi uma das melhores a que me lembro de ter assistido (embora parcialmente) e dessa impressão dei então conta aos leitores do Diário de Notícias, quando o jazz tinha ainda cobertura regular naquele jornal...

Os tempos mudam, sem dúvida, mas este é um espaço livre, que só acaba quando eu assim o decidir, e por isso me apeteceu hoje recordar a saudável diversidade estética que então pude testemunhar.


 

Interessantes confrontos estéticos (1)

 
Há muito se sabia da sensibilidade musical do pianista Fred Hersch  (que inaugurou a segunda ronda do festival, a que pude assistir), recentemente reavivadas pelo seu último álbum  [1999]  Let Yourself Go, gravado em circunstâncias semelhantes.
 
Porventura menos arrebatador e intenso do que nessa outra actuação em verdadeiro «estado de graça», o recital da passada quinta-feira  [04.11.99]  não deixou de ser exemplar na tranquilidade e maturidade da invenção musical  (Tango Bittersuite ou Up In The Air), no bom gosto do repertório escolhido  (Whisper Not, You’re The Top), na recorrente presença de referências  (Bemsha Swing ou Evidence) e na qualidade de versões modelares, como a inteligente associação do tradicional Black is The Color of My Lover’s Eyes com a canção-tema de Spartacus ou até a recriação harmónica e o tempo sustentado de Mood Indigo, um encore sublime.
 
A noite de sábado começaria com a presença de um dos nossos mais fulgurantes pianistas actuais  – João Paulo Esteves da Silva –  que se apresentou em palco na companhia de Carlos Bica (na foto) e Peter Epstein e cujas peças vêm insistindo em sucessivas e deambulantes melopeias de uníssonos entre piano e saxofones.
 
Não é o curto espaço da recensão muito genérica de um evento musical com participações tão diversificadas que permite uma mais profunda análise da actual obra de João Paulo  – limitação aliada à circunstância  (ainda e sempre ponderável)  de se tratar de um músico português cujo real talento, em termos absolutos, suscitaria especiais cuidados de abordagem.
 
O facto é que, neste preciso contexto instrumental e criativo (…), parece cada vez mais evidente não pretender este pianista e compositor privilegiar uma perspectiva criativa puramente jazzística, muito mais se orientando para uma linguagem situada nas cercanias da multifacetada música étnica. O que é altamente respeitável, daí não vindo nenhum mal ao mundo!
 
Aliás, a inclusão no repertório dos líricos e belíssimos Durme Querido Hijico ou Aldeia são disso clara expressão, por exemplo através de um tratamento rítmico no qual mesmo as incidências de métricas irregulares ou derivações sincopadas se afastam claramente da rítmica do jazz.
 
Este  – ou melhor: a música improvisada incidental de construção em progresso, vagamente inspirada pelo jazz –  apenas foi aflorado no sexto tema  (ainda sem título), no qual funcionou em pleno a invenção colectiva. Mas até o brilhante Passos, com o seu constante ciclo de inesperadas modulações, ao deixar transparecer um tratamento inventivo do fado numa estratégia de curiosa analogia com o que Piazzola fez a partir do tango, está longe de se situar nos terrenos do jazz.
 
Num contraste natural, bastaria ouvir e viver os primeiros compassos do impetuoso e vibrante Mole People, que Julian Arguëlles escolheu para abrir a parte que lhe coube do mesmo concerto, para perceber que, independentemente do instrumentário concreto de tal ou tal grupo e para além de toda a discussão em curso quanto às questões da modernidade, da originalidade ou da inovação em jazz, há determinadas características essenciais que conferem a esta linguagem musical uma identidade própria;  e ao mesmo tempo determinam que tal ou tal execução seja ou não enquadrável, como um dado natural, no âmbito do jazz  – sob pena de não sabermos do que estamos a falar!
 
Sendo absurda tontearia exigir-se que todas essas características estejam presentes de forma obrigatória e simultânea nos vários caminhos da actual criação jazzística  (como se se tratasse de um burocrático caderno de encargos), resulta inevitável pensar-se nelas enquanto ligadas a uma pulsação específica, mesmo que não confinada aos velhos pressupostos do swing;  à especial articulação de um fraseado que, intuída automática e culturalmente, é causa e ao mesmo tempo efeito de uma diferente abordagem técnica dos instrumentos e do seu tratamento tímbrico;  e, como é natural, à presença mais ou menos ampla da improvisação.
 
Precisamente por isso, é neste octeto tão importante a forma como Martin France estabelece a infra-estrutura rítmica e como, a partir dela, contribui para a tensão ou distensão expressiva e emocional de tal ou tal peça, em moldes totalmente novos;  como a controlada modernidade de um Gerard Presencer  (trompete)  pode coexistir com o maior arrojo de Iain Dixon ou do próprio Arguëlles (clarinete e saxofones); ou como a forte matriz cultural e a fogosa individualidade de Mário Laginha  (pianista convidado)  [ver foto]  se não esbatem e antes contribuem para o enriquecimento do muito amplo e colectivo espectro estético deste grupo de excepção.
 
O fabuloso trabalho de composição e instrumentação de Ace of Trumps e, em contraste, o caos organizado de Coffee Diesel, aí ficaram a prová-lo  – numa linguagem estimulante e original que, sem recusar aqui e ali os seus sinais, jamais precisou de ficar refém, como se provou, dos modelos americanos do jazz.
        

(1) in Diário de Notícias, 10.11.99


 

Publicado por Manuel Jorge Veloso o_sitio_do_jazz às 17:47
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